Março 18, 2025
A Sociedade da Neve vai além do canibalismo ao retratar tragédia nos Andes

A Sociedade da Neve vai além do canibalismo ao retratar tragédia nos Andes

Continue apos a publicidade

No dia 13 de outubro de 1972, o time de rúgbi uruguaio Old Christians partiu de Montevidéu rumo a Santiago, no Chile, para uma partida amistosa. Mas não chegou lá: seu avião caiu na Serrania dos Andes. O acidente ficou publicado por dois epítetos opostos: há quem o chame de Tragédia dos Andes — e os que preferem vê-lo uma vez que Milagre dos Andes. Ambos, a seu modo, estão corretos. Das 45 pessoas a bordo, 29 sobreviveram à queda. No lugar inóspito, com temperaturas que chegavam a 30 graus negativos, sem comida e sob os efeitos devastadores da altitude de 4 000 metros, o grupo sofreu outras perdas enquanto esperava por socorro — ou um milagre. O resgate não localizou os passageiros, e eles foram declarados mortos. Posteriormente 72 dias, o choque: dezesseis sobreviventes foram encontrados. Desde logo, não faltou quem tentasse desvendar uma vez que eles desafiaram o impossível. Tarefa que o diretor J.A. Bayona cumpre com surpreendente elegância e magnetismo no filme A Sociedade da Neve (A Sociedade da Neve; Espanha/Uruguai/Chile/Estados Unidos, 2023), que acaba de chegar à Netflix.

ANTES - Foto real dos passageiros embarcando no avião: rumo à luta pela vida
ANTES - Foto real dos passageiros embarcando no avião: rumo à luta pela vida (./AFP)

O cineasta espanhol de 48 anos ganhou saudação com produções inteligentes, profundas e impactantes — muitas em tom de pesadelo, do terror filosófico O Orfanato (2007) ao drama fantástico Sete Minutos Depois da Meia-Noite (2016). Quando se preparava para rodar O Impossível (2012) — sobre uma família que sobreviveu ao tsunami de 2004 na Tailândia, com Tom Holland e Naomi Watts no elenco — ele se deparou com o livro de mesmo nome do filme da Netflix assinado pelo jornalista uruguaio Pablo Vierci, companheiro dos atletas que sofreram o acidente. Até logo, Bayona sabia do incidente pela propagada ótica do sensacionalismo: para sobreviver nos Andes sem comida, os jovens apelaram ao extremo: alimentaram-se dos colegas mortos. A notícia do canibalismo minou a aura de heróis que pairava sobre eles, transformando a narrativa de superação em uma trama à la O Senhor das Moscas. A veras, porém, foi outra: ao contrário do romance de William Golding, no qual meninos isolados em uma ilhéu deixam aflorar seu lado selvagem, entre os sobreviventes nos Andes a luta pela vida ensejou altíssima ração de companheirismo e humanidade — até quando a antropofagia se revelou a única opção. “A trajetória dessas pessoas me impactou”, disse Bayona a VEJA (leia aquém).

A Sociedade da Neve

O diretor conta que os sobreviventes — hoje, catorze homens — ajudaram no desenvolvimento do roteiro e na preparação dos atores. A convívio com eles impressionou ainda mais o cineasta: “São personalidades muito diferentes entre si, com opiniões e vidas distintas. Mesmo assim, continuam unidos”. Em tempos de guerras e de grandes angústias, o incidente fornece uma prelecção de esperança para a humanidade. Esse componente de altruísmo foi decisivo já no primeiro dia da tragédia. Enquanto cuidavam dos feridos e choravam seus mortos (vários estavam acompanhados de familiares, inclusive esposas e de uma mãe), um dos atletas sugeriu que o socorro só poderia vir durante o dia — logo, deveriam se homiziar ao entardecer na segmento remanescente do avião, isolando frestas e abraçados. Mesmo ansiosos pelo resgate, e com susto de não serem vistos, todos aceitaram o projecto, em pacto que os livrou da morte iminente logo na noite inicial. Ao tentar informação, conseguiram só sintonizar uma rádio que lhes trazia notícias do mundo lá fora. Assim, ouviram que as buscas haviam se encerrado — e entenderam que estavam por conta própria.

Continue após a publicidade
PREPARO - Os atores: dieta para perder mais de 20 quilos e apoio psicológico
PREPARO – Os atores: dieta para perder mais de 20 quilos e suporte psicológico (./Netflix)

Eu tive que sobreviver

Qualquer tentativa de caminhar para longe do avião era frustrada pelo envolvente hostil, que causava desidratação, fome, fanatismo e mal de altitude. Posteriormente duas semanas, levantou-se a teoria de consumir corpos mortos. A conversa entre eles para tomar tal decisão envolvia questões que, ali, eram desprovidas de sentido: “Seria perversão? Deus vai nos perdoar? É proibido? Vamos ser presos?”. Quando segmento do grupo se rendeu, um deles, logo estudante de medicina, cortou os cadáveres longe dos demais, livrando-os do traumatismo. Em A Sociedade da NeveBayona segue a mesma lógica: só vislumbres do ato são filmados. Entre as façanhas do cineasta estão cenas que contrastam o caos com a imensidão da natureza. Há a primorosa sequência da queda do avião e um roteiro que hipnotiza ao impor a questão: e se fosse você, o que faria para sobreviver? A prova de resistência nos Andes é perturbadora, mas nos deixa razões para o otimismo.

“Busco a luz no que é sombrio”

O cineasta espanhol J.A. Bayona falou a VEJA sobre o filme e revelou por que histórias de sobrevivência o atraem.

BASTIDOR - Bayona no set gelado: sutileza ao filmar situações assustadoras
BASTIDOR - Bayona no set gelado: sutileza ao filmar situações assustadoras (./Netflix)

O Último Voo Do C-47 2023

Continue após a publicidade
Continue após a publicidade
Continua em seguida a publicidade

Além do drama real, o filme impôs desafios técnicos. Uma vez que foi fazê-lo? Foi, sim, reptante. Filmamos algumas cenas no lugar do acidente, e a maior segmento foi rodada em uma estação de esqui na Serra Nevada. Os atores contaram com suporte psicológico e de um médico — eles tiveram de perder mais de 20 quilos no processo e ainda encararam, de indumento, momentos de muito indiferente.

Seus filmes retratam dilemas reais e fictícios comparáveis a pesadelos. Por que esse viés? O que me interessa mesmo é o que está por trás do pesadelo — uma vez que os desejos, as ilusões, as fantasias. Eu busco a luz no que é sombrio, com o intuito de iluminar meus próprios medos.

E qual susto em privado lhe interessou ao fazer esse filme? A solidão. A sensação de estar sozinho, precisando de ajuda, ou a insuficiência de não poder ajudar a quem precisa.

Continue após a publicidade

O que leva de prelecção? A trajetória dessas pessoas me impactou, assim uma vez que os laços que criaram. Notei que são muito diferentes entre si, com opiniões e vidas distintas. Mas continuam unidas e coesas.

Publicado em VEJA de 5 de janeiro de 2024, edição nº 2874

Continua em seguida a publicidade

Fonte

Continue após a publicidade
Continue após a publicidade

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *