Nesta segunda-feira (26), o pequeno Maidstone United, da 6ª subdivisão inglesa, tentará redigir mais um capítulo de seu “narrativa de fadas” na Despensa da Inglaterra. Às 16h45 (de Brasília), a equipe encara o Coventry City, pelas oitavas de final, em procura de uma histórica vaga nas quartas. A partida tem transmissão AO VIVO pela ESPN no Star+.
O grande herói do Maidstone, acredite se quiser, é um brasílio. Trata-se do goleiro Lucas Covolan, de 32 anos, que foi revelado pelo Vasco, mas está desde 2015 rodando por equipes da Inglaterra.
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Na 4ª temporada da FA Cup, o arqueiro foi eleito o melhor em campo na histórica vitória por 2 a 1 sobre o Ipswich Town, da 2ª subdivisão, que fez o Maidstone se tornar o primeiro time non league (aquém da 4ª subdivisão e fora das ligas profissionais) a perceber as oitavas da tradicional competição mata-mata britânica.
Os Stones atualmente disputam a subdivisão Sul da Conference N/S, que é o 6º degrau da pirâmide do futebol inglês, detrás da Premier League, da Championship, da League One, da League Two e da National Conference.
Nesta segunda, o páreo será contra mais um time da Segundona, já que o Coventry está na 9ª colocação da Championship.
Em entrevista à ESPN, Lucas Covolan contou um pouco de sua história e relatou porquê é jogar por um time non league da Inglaterra.
Para surpresa de muitos, o paranaense de Curitiba afirmou que a estrutura de uma equipe de 6ª subdivisão na Grã-Bretanha é superior à de muitas equipes das principais ligas do Brasil.
“Cá, a infraestrutura é muito melhor que a de times da Série B do Brasil. Posso proferir que até mesmo de alguns clubes da 1ª subdivisão”, apontou.
Mas nem tudo são flores. O goleiro teve que mourejar, por exemplo, com um treinador que o discriminava por ser estrangeiro.
“Ele chegava no vestiário e cumprimentava todo mundo, aí chegava para me cumprimentar e pulava, sabe? Nem conversava comigo”, contou.
Além do Vasco, clube que o revelou, Lucas atuou por Athletico-PR, Esportivo-RS, Toledo-PR e Rio Branco-AC antes de ir para a Europa se aventurar no pequeno Atlético Rafal, da Espanha.
Na sequência, conseguiu um contrato para atuar pelo minúsculo Whitehawk, que foi sua porta de ingresso para a Inglaterra – e, anos mais tarde, para virar herói da FA Cup.
Conheça mais de Luca Covolan:
Porquê foi parar na Inglaterra?
“Minha ida para a Inglaterra surgiu de uma relação de telefone. Depois que eu saí do Atlético Rafal, da Espanha, fui passar férias no Brasil. Aí um camarada meu, o Alexandre Pascolato, que jogou comigo no Atlético-MG, me ligou e falou: ‘Lucas, o que você acha de jogar na Inglaterra? Sei que você está com contrato na Espanha, mas…’. E eu já o interrompi: ‘Não, não estou não! Estou estudando novas possibilidades…’. Aí ele me deu os bastidores: ‘Portanto, tem essa opção de jogar na Inglaterra, era para ser eu, mas te indiquei cá. Posso passar seu contato para esse empresário e a gente vê se eles gostam de você’. E eu falei na hora: ‘Simples, evidente! Pode passar!'”
“Enviei meu material para os caras e eles gostaram. Fui para o Whitehawk, que foi meu primeiro clube na Inglaterra. Era meu sonho jogar lá. Sempre digo isso, porque foi cá (na Inglaterra) que o futebol começou. O Brasil tem cinco Copas do Mundo e é o país do futebol, mas o esporte começou cá. Portanto, para mim sempre foi um sonho. Cá, tem os clubes da Premier League, mas mesmo você jogando nas equipes menores, sempre tem chance de enfrentar os clubes maiores em competições porquê a FA Cup. E, evidente, a segmento monetária também foi um incentivo, além da cultura do país”.
“Desde logo, passei por vários clubes e tive altos e baixos cá. Já passei por bastante coisa cá, enfrentei racismo, enfrentei depressão… Hoje, estou em um ponto da curso em que estou top, top! Estou sendo reconhecido na rua, todos na cidade reconhecem meu trabalho. Quero seguir isso agora para o meu porvir”.
Porquê é jogar num time de 6ª subdivisão?
“Quando as pessoas falam das equipes de 4ª, 5ª, 6ª subdivisão da Inglaterra, elas não têm muita noção. Você tem que entender que a Inglaterra tem muitas divisões e não há qualquer verificação com a infraestrutura dos clubes do Brasil. O que posso te proferir é que cá é um país de primeiro mundo, logo tem muito verba envolvido nas coisas”.
“Os times de 5ª e 6ª divisões têm muito mais infraestrutura que em outros lugares do mundo. Se você olhar para as equipes da 5ª subdivisão, muitas têm estrutura melhor que as equipes da Série B do Brasil. Posso proferir até mesmo que são melhores até que alguns clubes da Série A do Brasil. Portanto, se você falar da 5ª e 6ª subdivisão e tentar compará-las com o Brasil, não é a mesma coisa, até pelo verba que tem cá”.
É tudo profissional ou não?
“Eu nunca tive que trabalhar em outro tarefa para me sustentar cá, sempre fui jogador full time. É mais uma coisa que não tem porquê confrontar com o Brasil. Eu sei que muitos times da Série A pagam muito muito, evidente, mas, a partir da Série B, eles já não pagam tão muito. O que posso te proferir é que, cá, tem salários de jogadores da 5ª subdivisão e da 6ª subdivisão que são melhores do que os que atuam na 2ª subdivisão do Brasil”.
“Até já passei por times que tinham jogadores que conciliavam dois trabalhos. No entanto, a maioria era porquê treinador infantil, trabalhando em escolas, essas coisas. Sempre trabalhos mais voltados para o esporte, mesmo. Aí eles trabalhavam das 9h às 17h e depois a gente treinava”.
“Tem algumas equipes na minha subdivisão que são assim, com jogadores que trabalham part time, não são jogadores full time. Porém, em quase todos os times que eu passei praticamente todos os atletas eram jogadores full time. Eu mesmo nunca trabalhei com outra coisa, sempre fui jogador exclusivamente”.
Qual foi seu momento mais difícil na Inglaterra?
“Meus primeiros meses na Inglaterra foram complicados. A chegada, com novidade cultura, novidade língua… Eu já tinha uma base de falar inglês, mas, chegando cá, você vê que o linguagem é completamente dissemelhante do que você aprende na escola no Brasil. Portanto, você acaba se sentindo um pouco fora do seu espaço”.
“O britânico também é uma pessoa muito fechada. Eles não têm esse calor humano do brasílio, de ser muito receptivo e falar assim: ‘Depois do treino vamos lá em morada fazer um churrasco’. Não tem essas coisas. Senti bastante a falta de guarida por segmento das pessoas”.
“No início, nosso primeiro time até tinha vários brasileiros, logo foi um momento em que tentei me harmonizar pouco a pouco. No entanto, depois todos foram dispensados e fiquei só eu. Acabei sendo o faceta que ficou fora do grupo, porque só eu era estrangeiro. E aí veio um treinador inglês e isso foi muito ruim para mim, porque eu via que ele era um pouco racista”.
“Ele não me tratava muito muito. Ele chegava no vestiário e cumprimentava todo mundo, aí chegava para me cumprimentar e pulava, sabe? Nem conversava comigo… Portanto, foi muito difícil essa primeira experiência com um treinador inglês”.
“Depois disso, fui emprestado para o Lewes, um outro clube, em que as coisas eram completamente diferentes. As pessoas eram muito receptivas e gostavam de mim, me incluíram muito muito no grupo. Depois disso, as coisas foram indo muito na minha curso. Fui pouco a pouco buscando meu espaço e criando meu nome cá”.
“Eu vivi também um momento de depressão cá que não estava zero muito. Foi depois do ano da COVID-19, que eu não estava conseguindo ir para o Brasil, não conseguia ver minha família e meus amigos. Essas eram as coisas que me renovavam a virilidade para depois vir para cá e trabalhar o ano inteiro de novo. Portanto, foi a soma disso tudo”.
“Eu comecei a meu autossabotar. Eu estava na era num time muito bom, com um salário lícito, tinha tudo. A estrutura do clube era incrível. Mesmo na 4ª subdivisão, tinha estádio de 20 milénio pessoas, CT, tudo. Eu tinha tudo para trabalhar, mas não estava no meu melhor. Foram muitos fatos na minha vida pessoal, e aí eu não conseguia render em campo. Minha cabeça não estava boa e eu não conseguia focar no meu trabalho”.
“Foi quando o clube entrou em contato comigo. O facilitar me perguntou se estava tudo muito e, naquele dia, eu disse que não, que não estava muito. Ele já tinha me perguntado outras vezes e eu sempre falava que estava tudo lícito, mas nesse dia decidi falar a verdade, que eu não estava muito e estava deprimido. Estava evidente até pela questão do meu peso. Ele via que meu peso estava aumentando, e eu sou uma pessoa que sempre tive a mentalidade de estar com o corpo perfeito para conseguir desempenhar muito. Ele viu que meu rendimento estava caindo e me perguntou sobre tudo. Viu que eu não estava muito e me ajudou a me furar”.
“Ele pediu para que eu entrasse em contato com a Federação Inglesa para tratarem comigo essa situação de saúde mental. Cá, eles são excepcionais nisso, prezam muito a saúde mental. Quando você trabalha nas divisões profissionais, ou seja, entre a 1ª e a 4ª, eles dizem que você tem um ‘contrato vitalício’ com a Federação. Portanto, se você precisa de ajuda com um tanto, eles providenciam tudo o que podem oferecer”.
“Fui bastante a psicólogos, e foi mal fui me reerguendo no futebol inglês. Foi um processo lento. Não foi zero rápido, porque eu estava muito para insignificante, num buraco muito fundo, numa situação que nunca achei que fosse passar na vida. As pessoas que estão ao meu volta conhecem minha personalidade, sabem que sou do tipo de distrair bastante, estou sempre com astral e virilidade lá em cima. Portanto, eu mesmo fiquei surpreso de estar com uma depressão tão profunda. Achei que nunca ia passar por um tanto assim na vida”.
“Hoje, eu paladar de falar francamente disso, porque sei que muitos passam por situação semelhante e dizem que está tudo muito, mas não se sentem assim. Eu sei muito porquê é, posso falar e espero que eles estejam me escutando. Procurem ajuda, falem com as pessoas, porque é uma coisa super séria. Hoje, posso proferir que dei a volta por cima e estou 100% muito e muito feliz com tudo. Agradeço a todos que me ajudaram nesse processo, que foi longo, mas acredito que ainda vou colher muitos frutos disso no porvir”.
Sua atuação contra o Ipswich chamou a atenção na Inglaterra?
“A repercussão que esse jogo teve cá foi muito grande. Coloquei de novo meu nome em evidência no futebol inglês. Creio que os clubes tinham uma boa visão de mim, sabem que sou um bom goleiro. Portanto, acho que essa temporada vem provando para todos que estou super centrado, com uma cabeça no lugar e muito mais maduro hoje”.
“Hoje, nós estamos muito na nossa liga, lutando por vaga nos playoffs, e fui considerado o melhor goleiro da 1ª segmento da competição. O jogo contra o Ipswich não teve zero de casualidade, sabe? É um trabalho que a gente vem fazendo desde o início da temporada, com a mente no lugar manifesto”.
“Hoje, sou uma pessoa muito mais madura, muito mais centrada. Com 32 anos, me sinto muito muito. Acho que ainda tenho muito para ocupar cá. Acho que o porvir tende a ser muito bom. Quero continuar fazendo boas partidas, mas sempre mantendo os pés no soalho. Isso é o mais importante de tudo: foco e trabalhar possante sempre”.
Porquê foi manter a pressão de um time de subdivisão superior?
“Foi surreal, pelo bombardeiro que a gente tomou. Parecia uma luta de boxe. A gente ficou nas cordas só tomando porrada, só tomando porrada, só tomando porrada… Aí, acertamos dois cruzados e eles caíram, entendeu? Foram dois cruzados muito dados no contra-ataque, e foi mal ganhamos o jogo”.
“Simples que eu tive minha parcela ali também para a gente fazer um bom jogo, mas o sigilo foi ir com uma mentalidade bastante positiva para o jogo. Você vê que todos do nosso time estavam muito unidos e sabendo o que fazer. Tem muitos jogadores da nossa equipe que possuem nível para estar um subdivisão supra. E nós mostramos isso”.
“Minha família me ligou depois do jogo e comentaram comigo que eu estava muito tranquilo e sereno na partida, super focado, contribuindo e dando meu melhor. E foi realmente mal eu me senti. Estava muito positivo com tudo o que estava fazendo e mostrando, até porque sei que tenho potencial para estar em ligas maiores”.
Acha que dá para ir às quartas da FA Cup?
“É um jogo muito difícil. Vamos enfrentar outro clube de Championship. O Coventry tem uma estrutura muito maior do que a nossa, e uma base de torcedores muito maior também. Sem descrever o salário dos jogadores deles… A diferença chega a ser surreal”.
“Mas, ainda assim, a gente vai positivo para o jogo, assim porquê a gente estava positivo contra o Ipswich. Acho que às vezes não respeitam a gente cá porquê deveriam. Antes das partidas, a gente vinha escutando: ‘Ah, se perder de cinco hoje é lucro, se não tomar sete é lucro’. Portanto, a gente provou todo o contrário disso, né?”.
“Acredito que todo mundo vai estar com a cabeça nisso. Vamos manar na televisão de novo também. Todos os torcedores vão em peso para o jogo. Vai ser um dia muito bom. Porquê sempre, acredito em nós”.
Onde testemunhar a Coventry City x Maidstone United?
Coventry City x Maidstone United, nesta segunda-feira (26), às 16h45 (de Brasília), pela FA Cup, tem transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.