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A carne está cara. De acordo com a inflação medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o valor do quilo das carnes, em geral, aumentou 22% nos últimos 12 meses. E esses preços teimam em não descer. Mas a notícia ruim para os consumidores foi boa para os frigoríficos e seus acionistas. Em março, as ações do setor figuram na liderança entre as maiores altas da carteira do Ibovespa.
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A lista é completa por ações das empresas cíclicas domésticas, aquelas que são mais sensíveis aos ciclos da economia interna e que também tiveram destaque em janeiro e fevereiro. Nesse grupo, aparecem as do setor de educação e as varejistas.
Apesar de estarem fora das carteiras recomendadas por analistas, que ainda orientam ao investidor ter cautela na bolsa, os papéis das empresas dependentes do mercado doméstico foram bastante amassados desde o segundo semestre do ano passado.
Perto do fundo do poço, o espaço para descompressão desses ativos é maior. Foi o alívio no horizonte para os juros que tirou essas companhias da lama. Mas é preciso ter em conta que o valor bruto de cada uma dessas ações é menor, por isso, sua volatilidade é também mais expressiva.
Das 87 ações que compõem a carteira teórica, 65 conseguiram se valorizar em março. Entre os dez destaques, oito são ou frigoríficos ou cíclicas domésticas.
As 10 maiores altas do Ibovespa em março
Class. | Papel | Código | Variação (%) | Cotação |
1 | MINERVA ON | BEEF3 | 42,99 | 6,32 |
2 | MAGAZINE LUIZA ON | MGLU3 | 41,96 | 10,15 |
3 | COGNA ON | COGN3 | 37,50 | 2,09 |
4 | JBS ON | JBSS3 | 32,66 | 41,11 |
5 | MARFRIG ON | MRFG3 | 32,50 | 18,06 |
6 | BRAVA ON | BRAV3 | 28,26 | 23,10 |
7 | CVC BRASIL ON | CVCB3 | 22,54 | 2,12 |
8 | P.ACUCAR – CBD ON | PCAR3 | 22,13 | 3,09 |
9 | CSN MINERACAO ON | CMIN3 | 21,37 | 6,19 |
10 | LOCALIZA ON | RENT3 | 20,88 | 33,59 |
As dez maiores altas do Ibovespa no primeiro trimestre
Depois de apanharem no fim do ano passado, quando investidores limparam das carteiras as ações mais voláteis e ameaçadas pela escalada da Selic, a virada de cenário neste começo de ano vem beneficiando as ações mais sensíveis aos juros.
E o destaque entre as maiores altas do Ibovespa no primeiro trimestre de 2025 foi a Cogna. Mas sua concorrente Yduqs (que, com o esfriamento das conversas sobre uma possível fusão, deve seguir apenas como maior rival de marcado) também aparece nessa lista, assim como entre os destaques de março.
No primeiro trimestre, o retrato é mais/menos favorável à cesta de ativos do Ibovespa do que neste último mês: 61 avançaram entre janeiro e março deste ano.
As 10 maiores altas do Ibovespa no 1º trimestre de 2025
Class. | Papel | Código | Variação (%) | Cotação |
1 | COGNA ON | COGN3 | 91,74 | 2,09 |
2 | MAGAZINE LUIZA ON | MGLU3 | 56,15 | 10,15 |
3 | CVC BRASIL ON | CVCB3 | 53,62 | 2,12 |
4 | CYRELA REALT ON | CYRE3 | 41,00 | 23,90 |
5 | ASSAI ON | ASAI3 | 35,81 | 7,54 |
6 | YDUQS PART ON | YDUQ3 | 34,97 | 11,54 |
7 | CARREFOUR BR ON | CRFB3 | 33,52 | 7,25 |
8 | TOTVS ON | TOTS3 | 25,19 | 33,37 |
9 | TIM ON | TIMS3 | 24,81 | 18,00 |
10 | BTGP BANCO UNT | BPAC11 | 24,48 | 33,70 |
As razões para isso vieram majoritariamente do exterior. As apostas para os juros encontraram, enfim, um teto para sua alta: o começo hesitante de Donald Trump em seu segundo mandato na presidência dos Estados Unidos.
O tom menos beligerante (no âmbito do comércio internacional) que o esperado para o começo do governo republicano trouxe algum alívio ao câmbio.
Sim, investidores esperavam um Trump mais assertivo, enérgico e, portanto, mais nocivo à economia globalizada logo de cara. Embora o presidente americano de fato avance em sua agenda protecionista, o vaivém e o uso das ameaças tarifárias como arma de negociação colocam em dúvida o seu verdadeiro objetivo.
Mesmo com o banco central americano em compasso de espera pela evolução da agenda tarifária de Trump, o alívio no cenário externo e a garantia de mais dois cortes nos juros nos Estados Unidos este ano abriram espaço para um dólar mais fraco.
Com a reorganização do caos que virou o ambiente externo, as perspectivas para a inflação deste ano estacionaram aqui no Brasil. O fortalecimento do real (ou enfraquecimento do dólar, com queira), permitiu aos economistas enxergarem um limite para a alta da Selic – atualmente, a aposta para a taxa está nos 15%.
Outro ponto de respiro nos apostadores de juros no Brasil foram as pesquisas eleitorais. Embora investidores guardem muitas reservas para o cenário de 2026, a queda da popularidade de Lula, especialmente entre seus eleitores, sustenta projeções de uma mudança de governo.
E aí a Faria Lima e o Leblon veem espaço para o crescimento de um candidato nos moldes que pedem: fiscalista, alinhado à agenda do mercado financeiro e que defenda um Estado enxuto. Conforme essa visão de futuro ganha mais chances de se concretizar, mais esses agentes recobram o apetite ao risco por aqui.
Os destaques de março e do ano
- Março, o mês dos frigoríficos
As ações de produtores de proteína animal protagonizaram o ranking de altas no mês de março. O período mais intenso de divulgação dos balanços referentes ao quarto trimestre de 2024 foram, em grande parte, responsáveis pelo otimismo que impulsionou o setor na bolsa.
Em geral, os resultados mostraram uma dinâmica favorável ao setor – que só melhorou de dezembro para cá, com a queda dos preços de matérias-primas que servem para ração animal, a alta sustentada dos preços da carne e uma demanda resiliente.
“Vale pontuar que, no caso da proteína bovina, a virada do ciclo pecuário ao longo do ano deverá pressionar a rentabilidade dos frigoríficos, que tentarão repassar a elevação dos custos aos preços no mercado interno e externo. No mercado interno, parte da demanda deverá migrar para proteínas mais baratas, como de aves e suínas, que se beneficiariam dessa migração para sustentar preços em patamares mais elevados. No mercado externo, observamos em fevereiro um crescimento relevante no volume de exportações, sustentando preços em dólar em níveis interessantes para os frigoríficos exportadores”, escreve a equipe de renda variável do BTG.
Por isso, mesmo com algumas frustrações entre os frigoríficos (caso de BRF, por exemplo), o otimismo com o mercado acabou alavancando todas as ações neste mês.
É curioso, no entanto, que Minerva lidere as altas entre os pares mesmo após reportar um prejuízo bilionário no último período. Mas isso se trata de um fenômeno contábil. As receitas e o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês), que refletem a saúde da operação, cresceram quase 56% e 74%, nesta ordem. As perdas vieram do prejuízo cambial, com a disparada do dólar no período de outubro a dezembro do ano passado.
Não significa, portanto, que a companhia realizou, de fato, todo esse prejuízo. Na verdade, quando a Minerva reportou seu balanço, o dólar já tinha recuado bem. Então os investidores e analistas conseguiram isolar os efeitos contábeis, que criaram essa distorção nos resultados da companhia.
“A Minerva reportou um prejuízo relevante, mas o que chamou a atenção dos investidores foi a maior exposição da companhia ao mercado norte-americano, que puxou o crescimento de receita para além do que o mercado vinha esperando. Já a JBS, que é a nossa preferência no setor, divulgou, além de bons resultados, novidades em relação à listagem das ações nos Estados Unidos”, diz Felipe Paletta, estrategista da EQI Research.
Embora o movimento de dupla listagem não crie efeito imediato sobre o papel da JBS, o que o próprio especialista reconhece, a possibilidade de a companhia atrair tubarões do mercado internacional a coloca em um outro patamar do jogo de mercado.
Paletta destaca que a JBS trouxe uma alta sustentada das margens operacionais e de lucro e um fluxo de caixa forte, o que ajudou a reduzir o endividamento da empresa. Ou seja, a empresa praticamente preencheu todas as “caixinhas” que investidores da bolsa brasileira procuram numa ação hoje.
“A JBS já é uma empresa global, com grande presença nos Estados Unidos e em outras regiões. Isso trouxe ânimo para a tese da companhia, especialmente se considerarmos que ela está bastante descontada em relação aos seus pares globais, como a Tyson Foods”, acrescenta o estrategista da EQI Research.
Outro ponto importante para entender o retrato do setor este mês é que a ação da Minerva é atualmente negociada na casa dos R$ 6. Já a JBS, preferência da maioria das casas e gestores no setor, está com o papel cotado perto dos R$ 41.
Aí é uma questão matemática: qualquer centavo a mais ou a menos no preço do ativo da Minerva representará uma margem muito maior do que no da JBS.
Após elevar o preço-alvo para a JBS de R$ 53 para R$ 58, com recomendação de compra, a equipe de análise do Santander estimou um retorno potencial total para os acionistas da companhia de 37%, contabilizando dividendos já anunciados pela empresa. A estimativa para o Ebitda em 2025 também foi revista para cima em 15%.
“Essas revisões refletem a força contínua das operações no Brasil e uma perspectiva mais construtiva para o negócio de carne bovina na América do Norte, apesar dos ventos contrários do mercado externo”, avaliam os analistas do Santander Guilherme Palhares e Laura Hirata.
- A recuperação não tão confiável das cíclicas domésticas no 1º trimestre deste ano
Diante da escalada da Selic para os 15% ao ano (quem sabe até além), a melhora dos lucros ou dos resultados operacionais precisa surpreender com uma guinada de cenário para convencer investidores a voltarem para os papéis das empresas dependentes da economia doméstica.
Dito isso, no todo, a recuperação das empresas cíclicas domésticas neste começo de ano tem menos a ver com méritos das próprias companhias e mais com o alívio no horizonte para a Selic.
Além de o ambiente de juros alto estrangular a circulação de dinheiro na economia, o que desafia o crescimento dessas empresas, muitas delas estão altamente endividadas, o que tende a comprometer as suas margens de lucro. A reversão desse quadro, portanto – como a que aconteceu nos últimos meses, com as apostas vendo a Selic perto do pico – é benéfica para o grupo.
É preciso não confundir, no entanto, o alívio com otimismo. O caso para essas companhias é o primeiro, e não ainda o segundo.
“O bom desempenho das cíclicas domésticas no primeiro trimestre de 2025 tem como pano de fundo uma combinação de fatores técnicos e macroeconômicos. A bolsa brasileira encerrou 2024 em tom bastante negativo, com diversas empresas ligadas à economia local operando com níveis de short [operações que apostam na desvalorização do ativo] acima da média histórica. Esse cenário criou um terreno fértil para um rali de alívio”, explica Henrique Cavalcante, analista da Empiricus Research.
Em se tratando das varejistas, Assaí é o destaque no segmento alimentar. Segundo Cavalcante, os resultados do quarto trimestre de 2024 mostraram que a companhia está em trajetória de desalavancagem, o que torna o cenário de juros mais baixos ainda mais relevante para seu caso.
“Com capitalização e liquidez elevadas, a ação também acaba sendo um veículo natural para o investidor estrangeiro que quer aumentar exposição direta ao Brasil assumindo mais risco”, acrescenta.
A Empiricus tem recomendação neutra para o papel, por entender que há teses com melhor relação de risco versus retorno no varejo, “especialmente aquelas com estruturas de capital mais conservadoras, dado o grau de incerteza ainda presente no ciclo econômico”, pondera o analista, em referência a empresas que trabalham com público mais segmentado e resiliente, como o de alta renda.
Embora o analista não cite exemplos, a carteira da Empiricus tem nomes como o Grupo SBF, dono da Centauro e representante da Nike no Brasil.
- O outro caso emblemático no ranking deste começo de ano é o de Magazine Luiza, o destaque entre as varejistas, cujo balanço trouxe números considerados “fracos” por analistas, e ainda assim suas ações dispararam.
Paletta atribui a um movimento mais alavancado do mercado, ligado à rotação dos recursos na bolsa para as empresas cíclicas domésticas, que estavam abandonadas.
Mas uma história ganhou destaque nas últimas semanas e ofuscou o racional sobre a operação: a possibilidade de a varejista pagar dividendos pela primeira vez desde 2021. Na última semana, o Conselho de Administração do Magazine Luiza convocou Assembleia Geral Extraordinária (AGE) para aprovar a proposta de distribuição de R$ 225 milhões em dividendos referentes ao resultado de 2024.
Assim, todas as ponderações ficaram em segundo plano. Mas especialistas do mercado financeiro ainda alertam: a situação não é tão confortável quanto parece para a companhia.
Em relatório, os analistas da Genial Iago Souza e Nina Mirazon projetam desaceleração das vendas em lojas físicas, “dado que o ambiente macroeconômico para o varejo discricionário de alto tíquete tende a ser mais desafiador em 2025 do que foi em 2024”. Além disso, a equipe projeta um lucro 24% menor para a empresa neste ano.
Eles ponderam que os próximos balanços ainda podem refletir um “impulso inicial”, gerado pelo aumento da renda disponível no início do ano, mas o cenário é mais complexo adiante com a taxa básica de juros em patamares elevados.
“Ainda, vemos Casas Bahia sendo agressiva na oferta de crédito, o que pode minar o faturamento do Magazine Luiza no cenário em que a mesma não adote a mesma estratégia”, escrevem os analistas.
No começo de março, o J.P. Morgan rebaixou a recomendação para a ação de Magazine Luiza de neutra para venda em função do alto endividamento da companhia num momento de apertos nos juros.

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