Espanha e França defrontam-se esta noite (20h, RTP1), em Munique, para uma espécie de tira-teimas, precisamente a meio caminho dos dois duelos anteriores, em fases finais de Campeonatos da Europa, que ditaram um triunfo francesismo na final de 1984 e um espanhol nos “quartos” de 2012. Ambos por 2-0, com a França a sagrar-se campeã no primeiro (em moradia) e a Espanha a carimbar o título no segundo, na Ucrânia.
Agora, os caminhos de Espanha e França cruzam-se, pela terceira vez, no primeiro jogo das meias-finais do Alemanha2024, que determinará a melhor selecção do lado mais temível (que teve ainda Alemanha, Bélgica e Portugal).
Em rigor, pode nem passar à final a melhor equipa, pois nenhuma sondagem colocaria a França adiante da Espanha neste critério, depois do trajecto e das exibições das duas selecções na Alemanha. Da mesma forma, ninguém se atreveria a excluir a selecção de Mbappé, por mais entediante que possa tornar-se, da final de Berlim, no próximo domingo.
No fundo, em termos figurados, é um jogo entre a Bela e o monstro, um jogo de complementaridades, entre a irreverência e alegria dos espanhóis e a robustez e crueldade dos franceses. O próprio seleccionador francesismo já admitiu estar perante “a melhor equipa” do torneio, desejando intimamente que o reforço da vaidade espanhola ajude à razão “azul”.
Novidade tentativa para Deschamps
Depois de em 2016 ter visto Éder e Portugal negarem-lhe a possibilidade de tornar-se no primeiro a invadir um Campeonato da Europa uma vez que jogador e treinador, Deschamps tem no Alemanha2024 a renovada esperança de chegar à final para emendar o fracasso da primeira tentativa.
Mas, primeiro, quando celebra 12 anos adiante da selecção francesa, terá de espancar uma renovada e suasivo Espanha, vencedora da Liga das Nações em 2023. Se o conseguir, chegará à quarta final ao comando dos “tricolores”.
O seleccionador francesismo é, de resto, em seguida o desaparecimento de Mário Zagallo e Franz Beckenbauer, o único vencedor do Mundo uma vez que futebolista (1998) e seleccionador (2018) ainda vivo.
Vice-campeão mundial no Qatar2022, o velho médio nascido há 55 anos em Baiona, nos Pirenéus Atlânticos, encontra-se sob o lume cruzado dos críticos, numa posição fragilizada pelas prestações modestas da selecção, que chega a Munique graças a três empates e duas vitórias magras.
Muito pouco para um digno aspirante ao trono europeu, que, uma vez que agravante, nesta edição marcou exclusivamente três golos… um de penálti e dois autogolos.
Resultados suficientes para inflamar uma região que olha com espanto e inveja para o futebol dos espanhóis, sustentado no melhor ataque (11 golos), no maior número de finalizações (102) e até de recuperações de globo (230).
Isto, para não mencionar o rendimento de Mbappé, com um golo obtido de penálti, e que já obrigou Deschamps e Kolo Muani a saírem em resguardo do planeta da selecção, privado de uma visão perfeita pela máscara protectora.
A todos, Deschamps responde com aparente indiferença e frieza, sob uma couraça que a vida lhe impôs aos 19 anos, quando perdeu o irmão Philippe num sinistro leviano, a três dias da noite de Natal de 1987.
Isto, três anos depois de ter sido o único com coragem para dar ao companheiro Marcel Desailly a notícia da morte do meio-irmão do colega de equipa da formação do Nantes. Ontem, a um jornalista francesismo que acusou de estar “embuçado de sueco”, aconselhou um ducto que não passe o jogo, caso não goste do futebol da selecção.
Uma resposta reveladora do desgaste e desconforto que leste Europeu tem provocado por “nem tudo ter sido perfeito”.
Apesar do nepotismo parecer pender para a Espanha, Luis de la Fuente terá de mourejar, além da lesão de Pedri, com os castigos de Carvajal e Le Normand, ausências de peso na traço defensiva.
O seleccionador espanhol, que quer levar a selecção ao tetra, conta com os três pilares essenciais para o sucesso: “Trabalho, dedicação e sacrifício são importantes. Por isso, se dermos tudo, nunca falhamos”.
Evidente que Espanha também não é perfeita, o que resulta óbvio das críticas a Álvaro Morata, que em 2020 marcou o golo (1-1) na meia-final com a Itália, forçando os penáltis, o que muitos esqueceram.